Este espaço é dedicado aos estudantes que me dão o prazer de estar comigo nesta grande aventura que é o estudo da língua materna.
"Que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma ideia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento."
Clarice Lispector, Sobre a escrita...
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
Relatos de Bullying
sexta-feira, 4 de abril de 2008
Relato de uma aluna
Tudo
começa com ofensas, palavras, que nos magoam, até que tudo
ultrapassa os limites. Batem, agridem, roubam, excluem, chegam até a
ameaçar-te na tua casa. Tudo isto é horrível. Falo pela minha
experiência. Fui vítima de Bullying. Ando no 9º ano e mesmo assim
não me escapo. Até colegas da mesma turma. Conto-lhe isto para ver
que não vale a pena sofrer em silêncio, muito pelo contrário.
Agrediam-me durante as aulas (iam de puxões de cabelos, a chapadas,
etc.). Mas superei esta experiência, pois já no 5º ano tinha sido
vítima de Bullying. Tudo começou numa aula em que uma professora,
teve de ir buscar umas fichas ao seu cacifo e nesse dia disse: "Hoje
ocupem os lugares que quiserem", mas houve um problema e um
colega meu sentou-se no meu lugar e eu disse: "Aí é o meu
lugar". Essa pessoa partiu logo para a agressão verbal, fazendo
troça com a minha aparência física. Fui seguida, fui rejeitada,
fui acusada de ser mentirosa, por dizer verdades. Até que chegou ao
ponto que me foram ameaçar a casa. Tive que aguentar esta situação
até o fim do ano lectivo. Até que depois de muito batalhar, e até
ter sido enviada para o hospital, com uma crise de nervos, confundida
com uma apendicite, consegui mudar de turma. Ultrapassei tudo com a
ajuda dos meus pais, e da minha família. Por denunciar a minha
situação, foi tudo resolvido mais rapidamente,
e se possível com castigo, para o bullie.
É por isso que eu aconselho, a que todas as pessoas vítimas de bullying desabafem, tudo aquilo que lhes acontece. E aos pais e encarregados de educação, que tenham atenção ao comportamento dos seu filhos ou educandos, pois muitas vítimas sofrem em silêncio, mas isso manifesta-se no seu comportamento, por exemplo, se o seu filho, for um aluno de boas notas e de repente, diminui-las; Se ele de noite tem pesadelos em que grite "SOCORRO", "NÃO ME BATAM", "LARGUEM-ME"; e muitas outras situações, "investigue", pois muitas das vezes, podem ser as típicas vítimas de bullying que sofrem em silêncio.
É por isso que eu aconselho, a que todas as pessoas vítimas de bullying desabafem, tudo aquilo que lhes acontece. E aos pais e encarregados de educação, que tenham atenção ao comportamento dos seu filhos ou educandos, pois muitas vítimas sofrem em silêncio, mas isso manifesta-se no seu comportamento, por exemplo, se o seu filho, for um aluno de boas notas e de repente, diminui-las; Se ele de noite tem pesadelos em que grite "SOCORRO", "NÃO ME BATAM", "LARGUEM-ME"; e muitas outras situações, "investigue", pois muitas das vezes, podem ser as típicas vítimas de bullying que sofrem em silêncio.
Pedro Francisco
Recordo-me
de um caso de 'bullying' que ocorreu comigo na infância. Estudava
numa escola pública na cidade do interior pernambucano chamada
Tabira. Tinha em torno de 11 anos e sempre apanhava de alguns colegas
de turma que se mostravam valentões, bravos. E eu tinha muito medo
deles, acredito que deixava transparecer isso sem mesmo perceber.
Acontece que sempre fui muito aplicado, dedicado aos estudos e tinha
como melhor amigo um garoto grandão, valentão também, porém não
se metia em confusão. Ele, apesar de valentão, era meio desligado
dos estudos e sempre tirava notas baixas nas provas, então
aproveitei esta deficiência dele e propus um acordo: ele me livrava
dos valentões nas brigas corriqueiras e eu o ajudava nas provas,
assim conseguia sempre me livras das surras e os ditos 'bulls' me
deixavam em paz. Até hoje me lembro desses episódios na infância,
o grupo de valentões vinha em minha direção e meu amigo, de
imediato, tomava a frente e botava dotos prá correr...
Marta Serrate
Nunca
mais esqueci do constrangimento e sofrimento que passei na frente dos
meus colegas quando duas professoras de matemática me insultaram e
uma delas me sacudiu pelo braço só porque eu não sabia resolver o
problema no quadro negro. Esta última fez isso na frente de toda a
classe e me sacudiu muitas vezes pelo braço me fazendo chorar. Eu
tinha 6 anos. Mais tarde, a segunda professora de matemática fez a
mesma coisa com palavras, me humilhando ao máximo. Resultado: nunca
mais quis estudar matemática e parei de estudar no primeiro grau.
Miriam Marcia de Moraes
Minha
filha tem 10 anos, cabelos enormes e encaracolados, com muito volume.
Os cabelos dela são lindos, remetem a uma coisa meio afro e é
considerado um trunfo nas passarelas, já que ela faz alguns desfiles
de moda infantil. No entanto, na escola é chamada de pulguenta,
bruxa e uma série de adjetivos que a magoam profundamente. Ela
sempre me pede pra deixar que faça escova progressiva, chapinha, mas
seria um erro permitir que a maldade daqueles pestinhas retirem o seu
diferencial. Até porque muitas críticas acontecem quando ela usa
algo bonito ou diferente. A mãe de uma aluna me ligou pra saber onde
eu havia comprado uma boina que a filha dela queria desesperadamente,
a mesma que a menina havia chamado de "brega" e "coisa
de piranha", quando viu minha filha usando. Ser alta, magra e
estilosa tem sido difícil para a minha filha. Imagine o quanto de
maldade não acontece com as crianças gordinhas ou com outras
diferenças. Os professores costumam se fazer de mortos. Acho que
devia haver mais acompanhamento, especialmente durante o recreio.
José (nome fictício)
Estudava
numa escola pequena de Copacabana. Eu nem me lembrava que perturbava
um cara da minha turma, éramos alunos do primário. Um dia, já na
faculdade fomos jogar uma pelada. E lá estava o cara que eu
perturbava. Realmente não me lembrava. Do nada vem um cara e pula na
primeira disputa de bola e quebra minha perna. E ainda me deu um
chute na cabeça. Fui direto para o Miguel Couto e o jogo virou uma
pancadaria que meu time acabou perdendo. A gente fazia engenharia,
éramos jovens normais e o outro time era do que hoje se chama de
pitboys. Eram lutadores de jiu jitsu, surfistas e encrenqueiros. Só
soube que era ele quando com a perna quebrada urrando de dor ele veio
e "bateu o tiro de meta" no meu rosto. Perdi 5 dentes,
arranhão de córnea, tive trauma craniano e uma fratura na perna. Só
me lembrei do meu agressor ao ver umas fotos antigas do Colégio
Mello e Souza, mas realmente não lembrava que implicava com ele. Não
lembrava mesmo. E, se implicava, o que de tão grave pode fazer uma
criança de 7 anos com outra que justificasse uma agressão assim? Eu
não era uma criança má. Já o cara que hoje anda por aí com o
rosto em outdoor é um psicopata.
Tentação
TENTAÇÃO
Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.
Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.
Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.
Lá vinha ele trotando, à frente de sua dona, arrastando seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.
A menina abriu os olhos pasmados. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.
Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo.
Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos.
Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se, com urgência, com encabulamento, surpreendidos.
No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes de Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.
Mas ambos eram comprometidos.
Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.
A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe
compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina. Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás.
Clarice Lispector
Felicidade Clandestina
segunda-feira, 19 de outubro de 2015
O Ateneu - 2º ano
“Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.”
Onde eles estão parados?
O que é o “Ateneu”?
De que luta ele está falando?
Três anos havia que o infeliz, num suplício de pequeninas humilhações cruéis, agachado, abatido, esmagado, sob o peso das virtudes alheias mais que das próprias culpas, ali estava, — cariátide forçada no edifício de moralização do Ateneu, exemplar perfeito de depravação oferecido ao horror santo dos puros. Várias vezes nessa tarde fui assaltado pela chacota impertinente do Barbalho. O endemoninhado caolho puxava-me a roupa, esbarrava-me encontrões e fugia com grandes risadas falsas, ou parava-me de súbito em frente, e revestindo-se de quanta seriedade lhe era suscetível o açafrão da cara, perguntava: “Mudas as calças?” Um inferno. Até que afinal o meu desespero estourou. Foi à noite, pouco antes da ceia. Estávamos a um canto mal iluminado do pátio, quase sós. O biltre reconheceu-me e arreganhou uma inexprimível interjeição de mofa. Não esperei por mais. Estampei-lhe uma bofetada. Meio segundo depois, rolávamos na poeira, engalfinhados como feras. Uma luta rápida. Avisaram-nos que vinha o Silvino. Barbalho evadiu-se. Eu verifiquei que tinha o peito da blusa coberto de sangue que me corria do nariz. Uma hora mais tarde, na cama de ferro do salão azul, compenetrado da tristeza de hospital dos dormitórios, fundos na sombra do gás mortiço, trincando a colcha branca, eu meditava o retrospecto do meu dia. Era assim o colégio. Que fazer da matalotagem dos meus planos?
(POMPÉIA, Raul, pág.35, 1998)
a)
Qual a situação que esse trecho descreve?
b)
Que ações presentes nesse trecho desencadearam o ato violento?
c)
Esse trecho caracteriza uma situação de Bullying direto. Apresente
argumentos que comprovem essa ação.
d)
Observe a frase: “Era assim o Colégio”. Quais relações podemos
estabelecer entre essa cena descrita e as escolas atuais?
e)
Quais verbos presentes nesse trecho indicam situação de Bullying?
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