Este espaço é dedicado aos estudantes que me dão o prazer de estar comigo nesta grande aventura que é o estudo da língua materna.
"Que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma ideia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento."
Elenco: Benê Silva, José Dumont, Luci Pereira, Matheus Nachtergaele, Nelson Xavier
Produção: Vania Catani
Fotografia: Hugo Kovensky
Trilha Sonora: DJ Dolores, Orquestra Santa Massa
Duração: 100 min.
Ano: 2003
Prêmios e Festivais
ABC Cinematography Award Melhor Montagem
Brussels International Independent Film Festival Grande Prêmio Grande Prêmio Brasileiro de Cinema Melhor Roteiro Original / Melhor Ator Coadjuvante
Fribourg International Film Festival Prêmio FRIPESCI
Cine PE Melhor Ator / Melhor Diretor / Melhor Montagem / Melhor Filme / Melhor Som / Melhor Ator Coadjuvante / Melhor Atriz Coadjuvante / Prêmio de Crítica de Melhor Filme
Festival Internacional do Rio Prêmio de Público de Melhor Filme / Melhor Ator / Melhor Filme
Como alguém poderia amar a "noite" símbolo de mistério, desejo, sofrimento, morte, ... Leia o poema abaixo e mergulhe na viagem romântica de Gonçalves Dias.
A noite
Noite, melhor que o dia, quem não te ama!
Quem não vive mais brando em teu regaço!
Filinto
Eu amo a noite solitária e muda,
Quando no vasto céu fitando os olhos,
Além do escuro, que lhe tinge a face,
Alcanço deslumbrado
Milhões de sóis a divagar no espaço,
Como em salas de esplêndido banquete
Mil tochas aromáticas ardendo
Entre nuvens d'incenso!
Eu amo a noite taciturna e queda!
Amo a doce mudez que ela derrama,
E a fresca aragem pelas densas folhas
Do bosque murmurando:
Então, malgrado o véu que envolve a terra,
A vista, do que vela enxerga mundos,
E apesar do silêncio, o ouvido escuta
Notas de etéreas harpas.
Eu amo a noite taciturna e queda!
Então parece que da vida as fontes
Mais fáceis correm, mais sonoras soam,
Mais fundas se abrem;
Então parece que mais pura a brisa
Corre, — que então mais funda e leve a fonte
Mana, — e que os sons então mais doce e triste
Da música se espargem.
O peito aspira sôfrego ar de vida,
Que da terra não é; qual flor noturna,
Que bebe orvalho, ele se embebe e ensopa
Em êxtase de amor:
Mais direitas então, mais puras devem,
Calada a natureza, a terra e os homens,
Subir as orações aos pés do Eterno
Para afagar-lhe o trono!
Assim é que no templo majestoso
Reboa pela nave o som mais alto,
Quando o sacro instrumento quebra a augusta
Mudez do santuário;
Assim é que o incenso mais direito
Se eleva na capela que o resguarda,
E na chave da abóbada topando,
Como um dossel, se espraia.
Eu amo a noite solitária e muda;
Como formosa dona em régios paços,
Trajando ao mesmo tempo luto e galas
Majestosa e sentida;
Se no dó atentais, de que se enluta,
Certo sentis pesar de a ver tão triste;
Se o rosto lhe fitais, sentis deleite
De a ver tão bela e grave!
Considerai porém o nobre aspecto,
E o porte, e o garbo senhoril e altivo,
E as falas poucas, e o olhar sob'rano,
E a fronte levantada:
No silêncio que a veste, adorna e honra,
Conhecendo por fim quanto ela é grande,
Com voz humilde a saudarei rainha,
Curvado e respeitoso.
Eu amo a noite solitária e muda,
Quando, bem como em salas de banquete
Mil tochas aromáticas ardendo,
Giram fúlgidos astros!
Eu amo o leve odor que ela difunde,
E o rorante frescor caindo em pér'las,
E a mágica mudez que tanto fala,
E as sombras transparentes!
Oh! quando sobre a terra ela se estende,
Como em praia arenosa mansa vaga;
Ou quando, como a flor dentre o seu musgo,
A aurora desabrocha;
Mais forte e pura a voz humana soa,
E mais se acorda ao hino harmonioso,
Que a natureza sem cessar repete,
E Deus gostoso escuta.
Gonçalves Dias
Não precisamos ir longe, muito próximo a nós, uma música do século XX nos remete aos sentimentos da abandono e de entrega típicos dos Romantismo do século XIX.