Ela
era sujeita a julgamento. Por isso não contou nada a ninguém. Se
contasse, não acreditariam porque não acreditavam na realidade. Mas
ela que morava em Londres, onde os fantasmas existem nos becos
escuros, sabia da verdade. Seu dia, Sexta-feira, fora igual aos
outros. Só aconteceu sábado à noite. Mas na Sexta fez tudo igual
como sempre. Embora a atormentasse uma lembrança horrível: quando
era pequena, com uns sete anos de idade, brincava de marido e mulher
com seu primo Jack, na cama grande da vovó. E ambos faziam de tudo
para Ter filhinhos sem conseguir. Nunca mais vira Jack nem queria
vê-lo. Se era culpada, ele também o era. Solteira, é claro,
virgem, é claro. Morava sozinha numa cobertura em Soho. Nesse dia
tinha feito suas compras de comida: legumes e frutas. Porque comer
carne ela considerava pecado. Quando passava pelo Picadilly Circle e
via as mulheres esperando homens nas esquinas, só faltava vomitar.
Ainda mais por dinheiro! Era demais para se suportar. E aquela
estátua de Eros, ali, indecente. Foi depois do almoço ao trabalho:
era datilógrafa perfeita. Seu chefe nunca olhava para ela e
tratava-a felizmente com respeito chamando-a de Miss Algrave. Seu
primeiro nome era Ruth. E descendia de irlandeses. Era ruiva, usava
cabelos enrolados na nuca em coque severo. Tinha muitas sardas e pele
tão clara e fina que parecia uma seda branca. Os cílios também
eram ruivos. Era uma mulher bonita. Orgulhava-se muito do seu físico:
cheia de corpo e alta. Mas nunca ninguém havia tocado nos seus
seios. Costumava jantar num restaurante barato em Soho mesmo. Comia
camarão com molho de tomate. E nunca entrara num pub: nauseava-a o
cheiro do álcool, quando passava por um. Sentia-se ofendida pela
humanidade. Cultivava gerâneos vermelhos que eram uma glória na
primavera. Seu pai era pastor protestante e a mãe ainda morava em
Dublin com o filho casado. Seu irmão era casado com uma verdadeira
cadela chamada Tootzi. De vez em quando Miss Algrave escrevia uma
carta de protesto para o Time. E eles publicavam. Via com muito gosto
o seu nome: sincerely Ruth Algrave. Tomava banho só uma vez por
semana, no Sábado. Para não ver o seu corpo nu, não tirava nem as
calcinhas nem o sutiã. No dia em que aconteceu era Sábado e não
tinha portanto trabalho. Acordou cedo e tomou chá de jasmim. Depois
rezou. Depois saiu para tomar ar. Perto do Savoy Hotel quase foi
atropelada. Se isso acontecesse e ela morresse teria sido horrível
porque nada lhe aconteceria de noite.Foi ao ensaio do canto coral.
Tinha voz maviosa. Sim, era uma pessoa privilegiada. Depois foi
almoçar e permitiu-se comer camarão: estava tão bom que até
parecia pecado.Então dirigiu-se ao Hyde Park e sentou-se na grama.
Levara a Bíblia para ler. Mas- que Deus a perdoasse – o sol estava
tão guerrilheiro, tão bom tão quente, que, não leu nada, ficou só
sentada no chão sem coragem de se deitar. Procurou não olhar os
casais que se beijavam e se acariciavam sem a menor vergonha. Depois
foi para casa, regou as begônias e tomou banho. Então visitou Mrs.
Cabot que tinha noventa e sete anos. Levou-lhe um pedaço de bolo com
passas e tomaram chá. Miss Algrave sentia-se muito feliz,
embora...Bem, embora.Às ste horas voltou para casa. Nada tinha a
fazer. Então tricotou uma suéter para o inverno. De cor
esplendorosa: amarela como o sol. Antes de dormir tomou mais chá de
jasmim com biscoitos, escovou os dentes, mudou de roupa e meteu-se na
cama. Suas cortinas de gaze ela mesma fizera e pendurara. Era maio.
As cortinas se balançavam à brisa dessa noite tão singular.
Singular por quê? Não sabia. Leu um pouco o jornal da manhã e
fechou a luz da cabeceira. Pela janela aberta via o luar. Era noite
de lua cheia. Suspirou muito porque era difícil viver só. A solidão
a esmagava. Terrível não ter uma só pessoa para conversar. Era a
criatura mais solitária que conhecia. Até Mrs. Cabot tinha um gato.
Ruth Algrave não tinha bicho nenhum: eram bestiais demais para o seu
gosto. Nem tinha televisão. Por dois motivos: faltava-lhe dinheiro e
não queria ficar vendo as imoralidades que apareciam na . Na
televisão de Mrs. Cabot vira um homem beijando uma mulher na boca. E
isso sem falar no perigo da transmissão de micróbios. Ah, se
pudesse escreveria todos os dias uma carta de protesto para o Time.
Mas não adiantava protestar, ao que parecia. A falta de vergonha
estava no ar. Até já vira um cachorro com uma cadela. Ficou
impressionada. Mas se assim Deus queria, que então assim fosse. Mas
ninguém a tocaria jamais, pensou. Ficava curtindo a solidão. Até
as crianças eram imorais. Evitava-as. E lamentava muito Ter nascido
da incontinência de seu pai e de sua mãe. Sentia pudor deles não
terem tido pudor.Como deixava arroz cru na janela, os pombos vinham
visitá-la. Às vezes entravam-lhe no quarto. Eram enviados por Deus.
Tão inocentes. Arrulhando. Mas era meio imoral o arrulho deles,
embora menos do que ver mulher quase nua na televisão. Ia amanhã
sem falta escrever uma carta protestando contra os maus costumes
daquela maldita cidade que era Londres. Chegara uma vez a ver uma
fila de viciados junto de uma farmácia, esperando a vez de tomarem
uma aplicação. Como é que a Rainha permitia? Mistério. Escreveria
mais uma carta denunciando a própria Rainha. Escrevia bem, sem erros
de gramática e batia as cartas na máquina do escritório quando
tinha um instantede folga. Mr. Clairson, seu chefe, elogiava muito as
cartas publicadas. Até dissera que ela poderia um dia vir a ser
escritora. Ficara orgulhosa e agradecera muito. Estava assim deitada
na cama com a sua solidão. O embora. Foi então que aconteceu.
Sentiu que pela janela entrava uma coisa que não era um pombo. Teve
medo. Falou bem alto:- Quem é você?E a resposta veio em forma de
vento:- Eu sou um eu.- Quem é você? Perguntou trêmula.- Vim de
Saturno para amar você.- Mas eu não estou vendo ninguém! Gritou.-
O que importa é que você está me sentindo. E sentia mesmo. Teve um
frisson eletrônico.- Como é que você se chama? Perguntou com
medo.- Pouco importa.- Mas quero chamar seu nome!- Chame-me de
Ixtlan. Eles se entendiam em sânscrito. Seu contato era frio como o
de uma lagartixa, dava-lhe calafrios. Ixtlan tinha sobre a cabeça
uma coroa de cobras entrelaçadas, mansas pelo terror de poder
morrer. O manto que cobria o seu corpo era da mais sofrida cor roxa,
era ouro mau e púrpura coagulada. Ele disse:- Tire a camisola. A lua
estava enorme dentro do quarto. Ixtlan era branco e pequeno.
Deitou-se ao seu lado na cama de ferro. E passou a mão pelos seus
seios. Rosas negras. Ela nunca tinha sentido o que sentiu. Era como
se um aleijado jogasse no ar o seu cajado. Começou a suspirar e
disse para Ixtlan: - Eu te amo, meu amor! Meu grande amor! E – é,
sim. Aconteceu. Ela queria que não acabasse nunca. Como era bom, meu
Deus. Tinha vontade de mais , mais e mais. Ela pensava: aceitai-me!
Ou então: “Eu me vos oferto.” Era o domínio do “aqui e
agora”.Perguntou-lhe: quando é que você volta? Ixtlan respondeu:
- Na próxima lua cheia.- Mas eu não posso esperar tanto!- É o
jeito, disse ele até friamente.- Vou ficar esperando bebê? - Não.-
Mas vou morrer de saudade de você! Como é que eu faço? - Use-se.
Ele se levantou, beijou-a castamente na testa. E saiu pela janela.
Começou a chorar baixinho. Parecia um triste violino sem arco. A
prova de que tudo acontecera mesmo era o lençol manchado de sangue.
Guardou-o sem lavá-lo e poderia mostrá-lo a quem não acreditasse
nela. Viu a madrugada nascer toda cor-de-rosa. No fog os primeiros
passarinhos começaram a pipilar com doçura, ainda sem alvoroço.
Deus iluminava seu corpo. Mas, como uma baronesa Von Blich,
nostalgicamente recostada em seu dossel de cetim de seu leito, fingiu
tocar a campainha para chamar o mordomo que lhe traria café quente,
forte, forte. Ela o amava e ia esperar ardentemente pela nova lua
cheia. Não quis tomar banho para não tirar de si o gosto de Ixtlan.
Com ele não fora pecado e sim uma delícia. Não queria mais
escrever nenhuma carta de protesto: não protestava mais. E não foi
à igreja. Era mulher realizada. Tinha marido. Então no Domingo, na
hora do almoço, comeu filet mignon com purê de batatas. A carne
sangrenta era ótima. E tomou vinho tinto italiano. Era mesmo
privilegiada. Fora escolhida por um ser de Saturno. Tinha lhe
perguntado por que a havia escolhido. Ele dissera que era por ela ser
ruiva e virgem. Sentia-se bestial. Não tinha mais nojo dos bichos.
Eles que se amassem, era a melhor coisa do mundo. E ela esperaria por
Ixtlan. Ele voltaria: eu sei, eu sei, eu sei, pensava ela. Também
não tinha mais repulsa pelos casais do Hyde Park. Sabia como eles se
sentiam. Como era bom viver. Como era bom comer carne sangrenta. Como
era bom tomar vinho italiano bem adstringente, meio amargando e
restringindo a língua. Era agora imprópria para menores de dezoito
anos. E se deleitava, babava-se de gosto nisso. Como era Domingo, foi
ao canto coral. Cantou melhor do que nunca e não se surpreendeu
quando a escolheram para solista. Cantou a sua aleluia. Assim:
Aleluia! Aleluia! Aleluia!Depois foi ao Hyde Park e deitou-se na
grama quente, abriu um pouco as pernas para o sol entrar. Ser mulher
era uma coisa soberba. Só quem era mulher sabia. Mas pensou: será
que vou Ter que pagar um preço muito caro pela minha felicidade? Não
se incomodava. Pagaria tudo que tivesse de pagar. Sempre pagara e
sempre fora infeliz. E agora acabara-se a infelicidade. Ixtlan! Volte
logo! Não posso mais esperar! Venha! Venha! Venha! Pensou: será que
ele gostara de mim porque eu sou um pouco estrábica? Na próxima lua
cheia perguntaria a ele. Se fosse por isso, não tinha dúvida:
forçaria a mão e se tornaria completamente vesga. Ixtlan, tudo o
que você quiser que eu faça, eu faço. Só que morria de saudade.
Volte, my love. Sim. Mas fez uma coisa que era traição. Ixtlan a
compreenderia e perdoaria. Afinal de contas, a pessoa tinha que dar
um jeito, não tinha? Foi o seguinte: não agüentando mais,
encaminhou-se para o Picadilly Circle e achegou-se a um homem
cabeludo. Levou-o ao seu quarto. Disse-lhe que não precisava pagar.
Mas ele fez questão e antes de ir embora deixou na mesa-de-cabeceira
uma libra inteira! Bem que estava precisando de dinheiro. Ficou
furiosa, porém, quando ele não quis acreditar na sua história.
Mostrou-lhe, quase até o seu nariz, o lençol manchado de sangue.
Ele riu-se dela. Na Segunda-feira de manhã resolveu-se: não ia mais
trabalhar como datilógrafa tinha outros dons. Mr. Clairson que se
danasse. Ia era ficar mesmo nas ruas e levar homens paro o quarto.
Como era boa de cama , pagar-lhe-iam muito bem. Poderia beber vinho
italiano todos os dias. Tinha vontade de comprara um vestido bem
vermelho com o dinheiro que o cabeludo lhe deixara. Soltara os
cabelos bastos que eram uma beleza de ruivos. Ela parecia um uivo.
Aprendera que valia muito. Se Mr. Clairson, o sonso, quisesse que ela
trabalhasse para ele, teria que ser de outro bom modo. Antes
compraria o vestido vermelho decotado e depois iria ao escritório
chegando de propósito, pela primeira vez na vida, bem atrasada. E
falaria assim com o chefe:- Chega de datilografia! Você não me
venha com uma de sonso! Quer saber de uma coisa? Deite-se comigo na
cama, seu desgraçado! E tem mais: me pague um salário alto por mês,
seu sovina!Tinha certeza que ele aceitaria. Era casado com uma mulher
pálida e insignificante, a Joan, e tinha uma filha anêmica, a Lucy.
Vai é se deliciar comigo, o filho de uma cadela. E quando chegasse a
lua cheia- tomaria um banho purificador de todos os homens para estar
pronta para o festim com Ixtlan.
Este espaço é dedicado aos estudantes que me dão o prazer de estar comigo nesta grande aventura que é o estudo da língua materna.
"Que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma ideia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento."
Clarice Lispector, Sobre a escrita...
quarta-feira, 25 de novembro de 2015
2º ano A e B
Leiam o texto e reflitam os questionamentos abaixo.
A CAUSA SECRETA
Garcia, em pé, mirava e estalava as unhas; Fortunato, na cadeira de balanço, olhava para o teto; Maria Luísa, perto da janela, concluía um trabalho de agulha. Havia já cinco minutos que nenhum deles dizia nada. Tinham falado do dia, que estivera excelente, — de Catumbi, onde morava o casal Fortunato, e de uma casa de saúde, que adiante se explicará. Como os três personagens aqui presentes
estão agora mortos e enterrados, tempo é de contar a história sem rebuço.
Tinham falado também de outra coisa, além daquelas três, coisa tão feia e grave, que não lhes deixou muito gosto para tratar do dia, do bairro e da casa de saúde. Toda a conversação a este respeito foi constrangida. Agora mesmo, os dedos de Maria Luísa parecem ainda trêmulos, ao passo que há no rosto de Garcia uma expressão de severidade, que lhe não é habitual. Em verdade, o que se passou foi
de tal natureza, que para fazê-lo entender é preciso remontar à origem da situação.
Garcia tinha-se formado em medicina, no ano anterior, 1861. No de 1860, estando ainda na Escola, encontrou-se com Fortunato, pela primeira vez, à porta da Santa Casa; entrava, quando o outro saía. Fez-lhe impressão a figura; mas, ainda assim, tê-la-ia esquecido, se não fosse o segundo encontro, poucos dias depois. Morava na rua de D. Manoel. Uma de suas raras distrações era ir ao teatro de S. Januário, que ficava perto, entre essa rua e a praia; ia uma ou duas vezes por mês, e nunca achava acima de quarenta pessoas. Só os mais intrépidos ousavam estender os passos até aquele recanto da cidade. Uma noite, estando nas cadeiras, apareceu ali Fortunato, e sentou-se ao pé dele.
A peça era um dramalhão, cosido a facadas, ouriçado de imprecações e remorsos; mas Fortunato ouvia-a com singular interesse. Nos lances dolorosos, a atenção dele redobrava, os olhos iam avidamente de um personagem a outro, a tal ponto que o estudante suspeitou haver na peça reminiscências pessoais do vizinho. No fim do drama, veio uma farsa; mas Fortunato não esperou por ela e saiu; Garcia saiu atrás dele. Fortunato foi pelo Beco do Cotovelo, Rua de S. José, até o Largo
da Carioca. Ia devagar, cabisbaixo, parando às vezes, para dar uma bengalada em algum cão que dormia; o cão ficava ganindo e ele ia andando. No Largo da Carioca entrou num tílburi, e seguiu para os lados da Praça da Constituição. Garcia voltou para casa sem saber mais nada.
Decorreram algumas semanas. Uma noite, eram nove horas, estava em casa, quando ouviu rumor de vozes na escada; desceu logo do sótão, onde morava, ao primeiro andar, onde vivia um empregado do arsenal de guerra. Era este que alguns homens conduziam, escada acima, ensanguentado. O preto que o servia acudiu a abrir a porta; o homem gemia, as vozes eram confusas, a luz pouca.
Deposto o ferido na cama, Garcia disse que era preciso chamar um médico.
— Já aí vem um, acudiu alguém.
Garcia olhou: era o próprio homem da Santa Casa e do teatro. Imaginou que seria parente ou amigo do ferido; mas, rejeitou a suposição, desde que lhe ouvira perguntar se este tinha família ou pessoa próxima. Disse-lhe o preto que não, e ele assumiu a direção do serviço, pediu às pessoas estranhas que se retirassem, pagou aos carregadores, e deu as primeiras ordens. Sabendo que o Garcia era vizinho e estudante de medicina pediu-lhe que ficasse para ajudar o médico. Em seguida contou o que se passara.
— Foi uma malta de capoeiras. Eu vinha do quartel de Moura, onde fui visitar um primo, quando ouvi um barulho muito grande, e logo depois um ajuntamento. Parece que eles feriram também a um sujeito que passava, e que entrou por um daqueles becos; mas eu só vi a este senhor, que atravessava a rua no momento em que um dos capoeiras, roçando por ele, meteu-lhe o punhal. Não caiu logo; disse onde morava e, como era a dois passos, achei melhor trazê-lo.
— Conhecia-o antes? perguntou Garcia.
— Não, nunca o vi. Quem é?
— É um bom homem, empregado no arsenal de guerra. Chama-se Gouvêa.
— Não sei quem é.
Médico e subdelegado vieram daí a pouco; fez-se o curativo, e tomaram-se as informações. O desconhecido declarou chamar-se Fortunato Gomes da Silveira, ser capitalista, solteiro, morador em Catumbi. A ferida foi reconhecida grave. Durante o curativo ajudado pelo estudante, Fortunato serviu de criado, segurando a bacia, a vela, os panos, sem perturbar nada, olhando friamente para o ferido, que gemia muito. No fim, entendeu-se particularmente com o médico, acompanhou-o até o patamar da escada, e reiterou ao subdelegado a declaração de estar pronto a auxiliar as pesquisas da polícia. Os dois saíram, ele e o estudante ficaram no quarto.
Garcia estava atônito. Olhou para ele, viu-o sentar-se tranquilamente, estirar as pernas, meter as mãos nas algibeiras das calças, e fitar os olhos no ferido. Os olhos eram claros, cor de chumbo, moviam-se devagar, e tinham a expressão dura, seca e fria. Cara magra e pálida; uma tira estreita de barba, por baixo do queixo, e de uma têmpora a outra, curta, ruiva e rara. Teria quarenta anos. De quando em quando, voltava-se para o estudante, e perguntava alguma coisa acerca do ferido; mas tornava logo a olhar para ele, enquanto o rapaz lhe dava a resposta. A sensação que o estudante recebia era de repulsa ao mesmo tempo que de curiosidade; não podia negar que estava assistindo a um ato de rara dedicação, e se era desinteressado como parecia, não havia mais que aceitar o coração humano como um poço de mistérios.
Fortunato saiu pouco antes de uma hora; voltou nos dias seguintes, mas a cura fez-se depressa, e, antes de concluída, desapareceu sem dizer ao obsequiado onde morava. Foi o estudante que lhe deu as indicações do nome, rua e número.
— Vou agradecer-lhe a esmola que me fez, logo que possa sair, disse o convalescente.
Correu a Catumbi daí a seis dias. Fortunato recebeu-o constrangido, ouviu impaciente as palavras de agradecimento, deu-lhe uma resposta enfastiada e acabou batendo com as borlas do chambre no joelho. Gouvêa, defronte dele, sentado e calado, alisava o chapéu com os dedos, levantando os olhos de quando em quando, sem achar mais nada que dizer. No fim de dez minutos, pediu licença
para sair, e saiu.
— Cuidado com os capoeiras! disse-lhe o dono da casa, rindo-se.
O pobre-diabo saiu de lá mortificado, humilhado, mastigando a custo o desdém, forcejando por esquecê-lo, explicá-lo ou perdoá-lo, para que no coração só ficasse a memória do benefício; mas o esforço era vão. O ressentimento, hóspede novo e exclusivo, entrou e pôs fora o benefício, de tal modo que o desgraçado não teve mais que trepar à cabeça e refugiar-se ali como uma simples idéia. Foi assim que o próprio benfeitor insinuou a este homem o sentimento da ingratidão.
Tudo isso assombrou o Garcia. Este moço possuía, em gérmen, a faculdade de decifrar os homens, de decompor os caracteres, tinha o amor da análise, e sentia o regalo, que dizia ser supremo, de penetrar muitas camadas morais, até apalpar o segredo de um organismo. Picado de curiosidade, lembrou-se de ir ter com o homem de Catumbi, mas advertiu que nem recebera dele o oferecimento formal
da casa. Quando menos, era-lhe preciso um pretexto, e não achou nenhum.
Tempos depois, estando já formado e morando na Rua de Mata-cavalos, perto da do Conde, encontrou Fortunato em uma gôndola, encontrou-o ainda outras vezes, e a freqüência trouxe a familiaridade. Um dia Fortunato convidou-o a ir visitá-lo ali perto, em Catumbi.
— Sabe que estou casado?
— Não sabia.
— Casei-me há quatro meses, podia dizer quatro dias. Vá jantar conosco domingo.
— Domingo?
— Não esteja forjando desculpas; não admito desculpas. Vá domingo.
Garcia foi lá domingo. Fortunato deu-lhe um bom jantar, bons charutos e boa palestra, em companhia da senhora, que era interessante. A figura dele não mudara; os olhos eram as mesmas chapas de estanho, duras e frias; as outras feições não eram mais atraentes que dantes. Os obséquios, porém, se não resgatavam a natureza, davam alguma compensação, e não era pouco. Maria Luísa é que possuía ambos os feitiços, pessoa e modos. Era esbelta, airosa, olhos meigos e submissos; tinha vinte e cinco anos e parecia não passar de dezenove. Garcia, à segunda vez que lá foi, percebeu que entre eles havia alguma dissonância de caracteres, pouca ou nenhuma afinidade moral, e da parte da mulher para com o marido uns modos que transcendiam o respeito e confinavam na resignação e no temor. Um dia, estando os três juntos, perguntou Garcia a Maria Luísa se tivera notícia das circunstâncias em que ele conhecera o marido.
— Não, respondeu a moça.
— Vai ouvir uma ação bonita.
— Não vale a pena, interrompeu Fortunato.
— A senhora vai ver se vale a pena, insistiu o médico.
Contou o caso da Rua de D. Manoel. A moça ouviu-o espantada. Insensivelmente estendeu a mão e apertou o pulso ao marido, risonha e agradecida, como se acabasse de descobrir-lhe o coração. Fortunato sacudia os ombros, mas não ouvia com indiferença. No fim contou ele próprio a visita que o ferido lhe fez, com todos os pormenores da figura, dos gestos, das palavras atadas, dos silêncios, em suma, um estúrdio. E ria muito ao contá-la. Não era o riso da dobrez. A dobrez é evasiva e oblíqua; o riso dele era jovial e franco.
"Singular homem!" pensou Garcia.
Maria Luísa ficou desconsolada com a zombaria do marido; mas o médico restituiu-lhe a satisfação anterior, voltando a referir a dedicação deste e as suas raras qualidades de enfermeiro; tão bom enfermeiro, concluiu ele, que, se algum dia fundar uma casa de saúde, irei convidá-lo.
— Valeu? perguntou Fortunato.
— Valeu o quê?
— Vamos fundar uma casa de saúde?
— Não valeu nada; estou brincando.
— Podia-se fazer alguma coisa; e para o senhor, que começa a clínica, acho que seria bem bom. Tenho justamente uma casa que vai vagar, e serve.
Garcia recusou nesse e no dia seguinte; mas a ideia tinha-se metido na cabeça ao outro, e não foi possível recuar mais. Na verdade, era uma boa estréia para ele, e podia vir a ser um bom negócio para ambos. Aceitou finalmente, daí a dias, e foi uma desilusão para Maria Luísa. Criatura nervosa e frágil, padecia só com a ideia de que o marido tivesse de viver em contato com enfermidades humanas, mas não ousou opor-se-lhe, e curvou a cabeça. O plano fez-se e cumpriu-se depressa.
Verdade é que Fortunato não curou de mais nada, nem então, nem depois. Aberta a casa, foi ele o próprio administrador e chefe de enfermeiros, examinava tudo, ordenava tudo, compras e caldos, drogas e contas.
Garcia pôde então observar que a dedicação ao ferido da Rua D. Manoel não era um caso fortuito, mas assentava na própria natureza deste homem. Via-o servir como nenhum dos fâmulos. Não recuava diante de nada, não conhecia moléstia aflitiva ou repelente, e estava sempre pronto para tudo, a qualquer hora do dia ou da noite. Toda a gente pasmava e aplaudia. Fortunato estudava, acompanhava as operações, e nenhum outro curava os cáusticos.
— Tenho muita fé nos cáusticos, dizia ele.
A comunhão dos interesses apertou os laços da intimidade. Garcia tornou-se familiar na casa; ali jantava quase todos os dias, ali observava a pessoa e a vida de Maria Luísa, cuja solidão moral era evidente. E a solidão como que lheduplicava o encanto. Garcia começou a sentir que alguma coisa o agitava, quando ela aparecia, quando falava, quando trabalhava, calada, ao canto da janela, ou tocava ao piano umas músicas tristes. Manso e manso, entrou-lhe o amor no coração. Quando deu por ele, quis expeli-lo, para que entre ele e Fortunato não houvesse outro laço que o da amizade; mas não pôde. Pôde apenas trancá-lo; Maria Luísa compreendeu ambas as coisas, a afeição e o silêncio, mas não se deu por achada.
No começo de outubro deu-se um incidente que desvendou ainda mais aos olhos do médico a situação da moça. Fortunato metera-se a estudar anatomia e fisiologia, e ocupava-se nas horas vagas em rasgar e envenenar gatos e cães. Como os guinchos dos animais atordoavam os doentes, mudou o laboratório para casa, e a mulher, compleição nervosa, teve de os sofrer. Um dia, porém, não podendo mais, foi ter com o médico e pediu-lhe que, como coisa sua, alcançasse do marido a cessação de tais experiências.
— Mas a senhora mesma...
Maria Luísa acudiu, sorrindo:
— Ele naturalmente achará que sou criança. O que eu queria é que o senhor, como médico, lhe dissesse que isso me faz mal; e creia que faz...
Garcia alcançou prontamente que o outro acabasse com tais estudos. Se os foi fazer em outra parte, ninguém o soube, mas pode ser que sim. Maria Luísa agradeceu ao médico, tanto por ela como pelos animais, que não podia ver padecer. Tossia de quando em quando; Garcia perguntou-lhe se tinha alguma coisa, ela respondeu que nada.
— Deixe ver o pulso.
— Não tenho nada.
Não deu o pulso, e retirou-se. Garcia ficou apreensivo. Cuidava, ao contrário, que ela podia ter alguma coisa, que era preciso observá-la e avisar o marido em tempo. Dois dias depois, — exatamente o dia em que os vemos agora, — Garcia foi lá jantar. Na sala disseram-lhe que Fortunato estava no gabinete, e ele caminhou para ali: ia chegando à porta, no momento em que Maria Luísa saía aflita.
— Que é? perguntou-lhe.
— O rato! O rato! exclamou a moça sufocada e afastando-se.
Garcia lembrou-se que, na véspera, ouvira ao Fortunado queixar-se de um rato, que lhe levara um papel importante; mas estava longe de esperar o que viu. Viu Fortunato sentado à mesa, que havia no centro do gabinete, e sobre a qual pusera um prato com espírito de vinho. O líquido flamejava. Entre o polegar e o índice da mão esquerda segurava um barbante, de cuja ponta pendia o rato atado pela cauda. Na direita tinha uma tesoura. No momento em que o Garcia entrou, Fortunato cortava ao rato uma das patas; em seguida desceu o infeliz até a chama, rápido, para não matá-lo, e dispôs-se a fazer o mesmo à terceira, pois já lhe havia cortado a primeira. Garcia estacou horrorizado.
— Mate-o logo! disse-lhe.
— Já vai.
E com um sorriso único, reflexo de alma satisfeita, alguma coisa que traduzia a delícia íntima das sensações supremas, Fortunato cortou a terceira pata ao rato, e fez pela terceira vez o mesmo movimento até a chama. O miserável estorcia-se, guinchando, ensanguentado, chamuscado, e não acabava de morrer. Garcia desviou os olhos, depois voltou-os novamente, e estendeu a mão para impedir que o suplício continuasse, mas não chegou a fazê-lo, porque o diabo do homem impunha medo, com toda aquela serenidade radiosa da fisionomia. Faltava cortar a última pata; Fortunato cortou-a muito devagar, acompanhando a tesoura com os olhos; a pata caiu, e ele ficou olhando para o rato meio cadáver. Ao descê-lo pela quarta vez, até a chama, deu ainda mais rapidez ao gesto, para salvar, se pudesse, alguns farrapos de vida.
Garcia, defronte, conseguia dominar a repugnância do espetáculo para fixar a cara do homem. Nem raiva, nem ódio; tão-somente um vasto prazer, quieto e profundo, como daria a outro a audição de uma bela sonata ou a vista de uma estátua divina, alguma coisa parecida com a pura sensação estética. Pareceu-lhe, e era verdade, que Fortunato havia-o inteiramente esquecido. Isto posto, não estaria fingindo, e devia ser aquilo mesmo. A chama ia morrendo, o rato podia ser que tivesse ainda um resíduo de vida, sombra de sombra; Fortunato aproveitou-o para cortar-lhe o focinho e pela última vez chegar a carne ao fogo. Afinal deixou cair o cadáver no prato, e arredou de si toda essa mistura de chamusco e sangue.
Ao levantar-se deu com o médico e teve um sobressalto. Então, mostrou-se enraivecido contra o animal, que lhe comera o papel; mas a cólera evidentemente era fingida.
"Castiga sem raiva", pensou o médico, "pela necessidade de achar uma sensação de prazer, que só a dor alheia lhe pode dar: é o segredo deste homem".
Fortunato encareceu a importância do papel, a perda que lhe trazia, perda de tempo, é certo, mas o tempo agora era-lhe preciosíssimo. Garcia ouvia só, sem dizer nada, nem lhe dar crédito. Relembrava os atos dele, graves e leves, achava a mesma explicação para todos. Era a mesma troca das teclas da sensibilidade, um diletantismo sui generis, uma redução de Calígula.
Quando Maria Luísa voltou ao gabinete, daí a pouco, o marido foi ter com ela, rindo, pegou-lhe nas mãos e falou-lhe mansamente:
— Fracalhona!
E voltando-se para o médico:
— Há de crer que quase desmaiou?
Maria Luísa defendeu-se a medo, disse que era nervosa e mulher; depois foi sentar-se à janela com as suas lãs e agulhas, e os dedos ainda trêmulos, tal qual a vimos no começo desta história. Hão de lembrar-se que, depois de terem falado de outras coisas, ficaram calados os três, o marido sentado e olhando para o teto, o médico estalando as unhas. Pouco depois foram jantar; mas o jantar não foi alegre. Maria Luísa cismava e tossia; o médico indagava de si mesmo se ela não estaria exposta a algum excesso na companhia de tal homem. Era apenas possível; mas o amor trocou-lhe a possibilidade em certeza; tremeu por ela e cuidou de os vigiar.
Ela tossia, tossia, e não se passou muito tempo que a moléstia não tirasse a máscara. Era a tísica, velha dama insaciável, que chupa a vida toda, até deixar um bagaço de ossos. Fortunato recebeu a notícia como um golpe; amava deveras a mulher, a seu modo, estava acostumado com ela, custava-lhe perdê-la. Não poupou esforços, médicos, remédios, ares, todos os recursos e todos os paliativos. Mas foi tudo vão. A doença era mortal.
Nos últimos dias, em presença dos tormentos supremos da moça, a índole do marido subjugou qualquer outra afeição. Não a deixou mais; fitou o olho baço e frio naquela decomposição lenta e dolorosa da vida, bebeu uma a uma as aflições da bela criatura, agora magra e transparente, devorada de febre e minada de morte. Egoísmo aspérrimo, faminto de sensações, não lhe perdoou um só minuto de agonia, nem lhos pagou com uma só lágrima, pública ou íntima. Só quando ela expirou, é que ele ficou aturdido. Voltando a si, viu que estava outra vez só.
De noite, indo repousar uma parenta de Maria Luísa, que a ajudara a morrer, ficaram na sala Fortunato e Garcia, velando o cadáver, ambos pensativos; mas o próprio marido estava fatigado, o médico disse-lhe que repousasse um pouco.
— Vá descansar, passe pelo sono uma hora ou duas: eu irei depois.
Fortunato saiu, foi deitar-se no sofá da saleta contígua, e adormeceu logo. Vinte minutos depois acordou, quis dormir outra vez, cochilou alguns minutos, até que se levantou e voltou à sala. Caminhava nas pontas dos pés para não acordar a parenta, que dormia perto. Chegando à porta, estacou assombrado.
Garcia tinha-se chegado ao cadáver, levantara o lenço e contemplara por alguns instantes as feições defuntas. Depois, como se a morte espiritualizasse tudo, inclinou-se e beijou-a na testa. Foi nesse momento que Fortunato chegou à porta. Estacou assombrado; não podia ser o beijo da amizade, podia ser o epílogo de um livro adúltero. Não tinha ciúmes, note-se; a natureza compô-lo de maneira que lhe não deu ciúmes nem inveja, mas dera-lhe vaidade, que não é menos cativa ao ressentimento. Olhou assombrado, mordendo os beiços.
Entretanto, Garcia inclinou-se ainda para beijar outra vez o cadáver; mas então não pôde mais. O beijo rebentou em soluços, e os olhos não puderam conter as lágrimas, que vieram em borbotões, lágrimas de amor calado, e irremediável desespero. Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranqüilo essa explosão de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa.
- A bondade realmente existe?
- Características de Machado de Assis presentes nesse texto.
- O que há de sombrio?
Questionamentos.
- A bondade realmente existe?
- Características de Machado de Assis presentes nesse texto.
- O que há de sombrio?
1º ano C atividades de avaliação
Leiam e reflitas sobre as letras das músicas abaixo, tanto no contexto medieval quanto no contemporâneo.
Podres poderes
Caetano
Veloso
Enquanto
os homens exercem seus podres poderes
Motos e fuscas avançam os sinais vermelhos
E perdem os verdes somos uns boçais
Queria querer gritar setecentas mil vezes
Como são lindos, como são lindos os burgueses
E os japoneses mas tudo é muito mais
Será que nunca faremos senão confirmar
A incompetência da américa católica
Que sempre precisará de ridículos tiranos?
Será, será que será, que será, que será
Será que esta minha estúpida retórica
Terá que soar, terá que se ouvir por mais mil anos?
Enquanto os homens exercem seus podres poderes
índios e padres e bichas, negros e mulheres
E adolescentes fazem o carnaval
Queria querer cantar afinado com eles
Silenciar em respeito ao seu transe, num êxtase
Ser indecente mas tudo é muito mau
Ou então cada paisano e cada capataz
Com sua burrice fará jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades, caatingas e nos gerais
Será que apenas os hermetismos pascoais
Os toms, os miltons, seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos salvarão dessas trevas e nada mais?
Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Morrer e matar de fome, de raiva e de sede
São tantas vezes gestos naturais
Eu quero aproximar o meu cantar vagabundo
Daqueles que velam pela alegria do mundo
Indo mais fundo tins e bens e tais
Refrão
Motos e fuscas avançam os sinais vermelhos
E perdem os verdes somos uns boçais
Queria querer gritar setecentas mil vezes
Como são lindos, como são lindos os burgueses
E os japoneses mas tudo é muito mais
Será que nunca faremos senão confirmar
A incompetência da américa católica
Que sempre precisará de ridículos tiranos?
Será, será que será, que será, que será
Será que esta minha estúpida retórica
Terá que soar, terá que se ouvir por mais mil anos?
Enquanto os homens exercem seus podres poderes
índios e padres e bichas, negros e mulheres
E adolescentes fazem o carnaval
Queria querer cantar afinado com eles
Silenciar em respeito ao seu transe, num êxtase
Ser indecente mas tudo é muito mau
Ou então cada paisano e cada capataz
Com sua burrice fará jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades, caatingas e nos gerais
Será que apenas os hermetismos pascoais
Os toms, os miltons, seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos salvarão dessas trevas e nada mais?
Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Morrer e matar de fome, de raiva e de sede
São tantas vezes gestos naturais
Eu quero aproximar o meu cantar vagabundo
Daqueles que velam pela alegria do mundo
Indo mais fundo tins e bens e tais
Refrão
A Rita
Chico
Buarque
A
Rita levou meu sorriso
No
sorriso dela
Meu
assunto
Levou
junto com ela
O
que me é de direito
E
arrancou-me do peito
E
tem mais
Levou
seu retrato, seu trapo, seu prato
Que
papel!
Uma
imagem de São Francisco
E
um bom disco de Noel
A
Rita matou nosso amor de vingança
Nem
herança deixou
Não
levou um tostão
Porque
não tinha não
Mas
causou perdas e danos
Levou
os meus planos
Meus
pobres enganos
Os
meus vinte anos
O
meu coração
E
além de tudo
Me
deixou mudo
Um
violão
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
Relatos de Bullying
sexta-feira, 4 de abril de 2008
Relato de uma aluna
Tudo
começa com ofensas, palavras, que nos magoam, até que tudo
ultrapassa os limites. Batem, agridem, roubam, excluem, chegam até a
ameaçar-te na tua casa. Tudo isto é horrível. Falo pela minha
experiência. Fui vítima de Bullying. Ando no 9º ano e mesmo assim
não me escapo. Até colegas da mesma turma. Conto-lhe isto para ver
que não vale a pena sofrer em silêncio, muito pelo contrário.
Agrediam-me durante as aulas (iam de puxões de cabelos, a chapadas,
etc.). Mas superei esta experiência, pois já no 5º ano tinha sido
vítima de Bullying. Tudo começou numa aula em que uma professora,
teve de ir buscar umas fichas ao seu cacifo e nesse dia disse: "Hoje
ocupem os lugares que quiserem", mas houve um problema e um
colega meu sentou-se no meu lugar e eu disse: "Aí é o meu
lugar". Essa pessoa partiu logo para a agressão verbal, fazendo
troça com a minha aparência física. Fui seguida, fui rejeitada,
fui acusada de ser mentirosa, por dizer verdades. Até que chegou ao
ponto que me foram ameaçar a casa. Tive que aguentar esta situação
até o fim do ano lectivo. Até que depois de muito batalhar, e até
ter sido enviada para o hospital, com uma crise de nervos, confundida
com uma apendicite, consegui mudar de turma. Ultrapassei tudo com a
ajuda dos meus pais, e da minha família. Por denunciar a minha
situação, foi tudo resolvido mais rapidamente,
e se possível com castigo, para o bullie.
É por isso que eu aconselho, a que todas as pessoas vítimas de bullying desabafem, tudo aquilo que lhes acontece. E aos pais e encarregados de educação, que tenham atenção ao comportamento dos seu filhos ou educandos, pois muitas vítimas sofrem em silêncio, mas isso manifesta-se no seu comportamento, por exemplo, se o seu filho, for um aluno de boas notas e de repente, diminui-las; Se ele de noite tem pesadelos em que grite "SOCORRO", "NÃO ME BATAM", "LARGUEM-ME"; e muitas outras situações, "investigue", pois muitas das vezes, podem ser as típicas vítimas de bullying que sofrem em silêncio.
É por isso que eu aconselho, a que todas as pessoas vítimas de bullying desabafem, tudo aquilo que lhes acontece. E aos pais e encarregados de educação, que tenham atenção ao comportamento dos seu filhos ou educandos, pois muitas vítimas sofrem em silêncio, mas isso manifesta-se no seu comportamento, por exemplo, se o seu filho, for um aluno de boas notas e de repente, diminui-las; Se ele de noite tem pesadelos em que grite "SOCORRO", "NÃO ME BATAM", "LARGUEM-ME"; e muitas outras situações, "investigue", pois muitas das vezes, podem ser as típicas vítimas de bullying que sofrem em silêncio.
Pedro Francisco
Recordo-me
de um caso de 'bullying' que ocorreu comigo na infância. Estudava
numa escola pública na cidade do interior pernambucano chamada
Tabira. Tinha em torno de 11 anos e sempre apanhava de alguns colegas
de turma que se mostravam valentões, bravos. E eu tinha muito medo
deles, acredito que deixava transparecer isso sem mesmo perceber.
Acontece que sempre fui muito aplicado, dedicado aos estudos e tinha
como melhor amigo um garoto grandão, valentão também, porém não
se metia em confusão. Ele, apesar de valentão, era meio desligado
dos estudos e sempre tirava notas baixas nas provas, então
aproveitei esta deficiência dele e propus um acordo: ele me livrava
dos valentões nas brigas corriqueiras e eu o ajudava nas provas,
assim conseguia sempre me livras das surras e os ditos 'bulls' me
deixavam em paz. Até hoje me lembro desses episódios na infância,
o grupo de valentões vinha em minha direção e meu amigo, de
imediato, tomava a frente e botava dotos prá correr...
Marta Serrate
Nunca
mais esqueci do constrangimento e sofrimento que passei na frente dos
meus colegas quando duas professoras de matemática me insultaram e
uma delas me sacudiu pelo braço só porque eu não sabia resolver o
problema no quadro negro. Esta última fez isso na frente de toda a
classe e me sacudiu muitas vezes pelo braço me fazendo chorar. Eu
tinha 6 anos. Mais tarde, a segunda professora de matemática fez a
mesma coisa com palavras, me humilhando ao máximo. Resultado: nunca
mais quis estudar matemática e parei de estudar no primeiro grau.
Miriam Marcia de Moraes
Minha
filha tem 10 anos, cabelos enormes e encaracolados, com muito volume.
Os cabelos dela são lindos, remetem a uma coisa meio afro e é
considerado um trunfo nas passarelas, já que ela faz alguns desfiles
de moda infantil. No entanto, na escola é chamada de pulguenta,
bruxa e uma série de adjetivos que a magoam profundamente. Ela
sempre me pede pra deixar que faça escova progressiva, chapinha, mas
seria um erro permitir que a maldade daqueles pestinhas retirem o seu
diferencial. Até porque muitas críticas acontecem quando ela usa
algo bonito ou diferente. A mãe de uma aluna me ligou pra saber onde
eu havia comprado uma boina que a filha dela queria desesperadamente,
a mesma que a menina havia chamado de "brega" e "coisa
de piranha", quando viu minha filha usando. Ser alta, magra e
estilosa tem sido difícil para a minha filha. Imagine o quanto de
maldade não acontece com as crianças gordinhas ou com outras
diferenças. Os professores costumam se fazer de mortos. Acho que
devia haver mais acompanhamento, especialmente durante o recreio.
José (nome fictício)
Estudava
numa escola pequena de Copacabana. Eu nem me lembrava que perturbava
um cara da minha turma, éramos alunos do primário. Um dia, já na
faculdade fomos jogar uma pelada. E lá estava o cara que eu
perturbava. Realmente não me lembrava. Do nada vem um cara e pula na
primeira disputa de bola e quebra minha perna. E ainda me deu um
chute na cabeça. Fui direto para o Miguel Couto e o jogo virou uma
pancadaria que meu time acabou perdendo. A gente fazia engenharia,
éramos jovens normais e o outro time era do que hoje se chama de
pitboys. Eram lutadores de jiu jitsu, surfistas e encrenqueiros. Só
soube que era ele quando com a perna quebrada urrando de dor ele veio
e "bateu o tiro de meta" no meu rosto. Perdi 5 dentes,
arranhão de córnea, tive trauma craniano e uma fratura na perna. Só
me lembrei do meu agressor ao ver umas fotos antigas do Colégio
Mello e Souza, mas realmente não lembrava que implicava com ele. Não
lembrava mesmo. E, se implicava, o que de tão grave pode fazer uma
criança de 7 anos com outra que justificasse uma agressão assim? Eu
não era uma criança má. Já o cara que hoje anda por aí com o
rosto em outdoor é um psicopata.
Tentação
TENTAÇÃO
Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.
Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.
Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.
Lá vinha ele trotando, à frente de sua dona, arrastando seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.
A menina abriu os olhos pasmados. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.
Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo.
Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos.
Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se, com urgência, com encabulamento, surpreendidos.
No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes de Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.
Mas ambos eram comprometidos.
Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.
A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe
compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina. Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás.
Clarice Lispector
Felicidade Clandestina
segunda-feira, 19 de outubro de 2015
O Ateneu - 2º ano
“Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.”
Onde eles estão parados?
O que é o “Ateneu”?
De que luta ele está falando?
Três anos havia que o infeliz, num suplício de pequeninas humilhações cruéis, agachado, abatido, esmagado, sob o peso das virtudes alheias mais que das próprias culpas, ali estava, — cariátide forçada no edifício de moralização do Ateneu, exemplar perfeito de depravação oferecido ao horror santo dos puros. Várias vezes nessa tarde fui assaltado pela chacota impertinente do Barbalho. O endemoninhado caolho puxava-me a roupa, esbarrava-me encontrões e fugia com grandes risadas falsas, ou parava-me de súbito em frente, e revestindo-se de quanta seriedade lhe era suscetível o açafrão da cara, perguntava: “Mudas as calças?” Um inferno. Até que afinal o meu desespero estourou. Foi à noite, pouco antes da ceia. Estávamos a um canto mal iluminado do pátio, quase sós. O biltre reconheceu-me e arreganhou uma inexprimível interjeição de mofa. Não esperei por mais. Estampei-lhe uma bofetada. Meio segundo depois, rolávamos na poeira, engalfinhados como feras. Uma luta rápida. Avisaram-nos que vinha o Silvino. Barbalho evadiu-se. Eu verifiquei que tinha o peito da blusa coberto de sangue que me corria do nariz. Uma hora mais tarde, na cama de ferro do salão azul, compenetrado da tristeza de hospital dos dormitórios, fundos na sombra do gás mortiço, trincando a colcha branca, eu meditava o retrospecto do meu dia. Era assim o colégio. Que fazer da matalotagem dos meus planos?
(POMPÉIA, Raul, pág.35, 1998)
a)
Qual a situação que esse trecho descreve?
b)
Que ações presentes nesse trecho desencadearam o ato violento?
c)
Esse trecho caracteriza uma situação de Bullying direto. Apresente
argumentos que comprovem essa ação.
d)
Observe a frase: “Era assim o Colégio”. Quais relações podemos
estabelecer entre essa cena descrita e as escolas atuais?
e)
Quais verbos presentes nesse trecho indicam situação de Bullying?
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
Gabarito 1º ano - O que será
O que será (À flor da terra)Chico Buarque
O que será que será
Que andam suspirando
pelas alcovas
Que andam
sussurrando em versos e trovas
Que andam combinando
no breu das tocas
Que anda nas
cabeças, anda nas bocas
Que andam acendendo
velas nos becos
Que estão falando
alto pelos botecos
Que gritam nos
mercados, que com certeza
Está na natureza,
será que será
O que não tem
certeza nem nunca terá
O que não tem
conserto nem nunca terá
O que não tem
tamanho
O que será que será
Que vive nas ideias
desses amantes
Que cantam os poetas
mais delirantes
Que juram os
profetas embriagados
Que está na romaria
dos mutilados
Que está na
fantasia dos infelizes
Que está no
dia-a-dia das meretrizes
No plano dos
bandidos, dos desvalidos
Em todos os
sentidos, será que será
O que não tem
decência nem nunca terá
O que não tem
censura nem nunca terá
O que não faz
sentido
O que será que será
Que todos os avisos
não vão evitar
Porque todos os
risos vão desafiar
Porque todos os
sinos irão repicar
Porque todos os
hinos irão consagrar
E todos os meninos
vão desembestar
E todos os destinos
irão se encontrar
E o mesmo Padre
Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele
inferno, vai abençoar
O que não tem
governo nem nunca terá
O que não tem
vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo
domingo, 6 de setembro de 2015
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
Poema em Linha Reta
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Álvaro de Campos (Fernando de Pessoa)
quinta-feira, 6 de agosto de 2015
quinta-feira, 9 de julho de 2015
Para o 1º ano C - Atividade Minha História
Texto para análise e discussão
Minha História (Gesù Bambino)
Chico
Buarque de Holanda
Ele
vinha sem muita conversa, sem muito explicar
Eu só sei que falava e cheirava e gostava de mar
Sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente
E minha mãe se entregou a esse homem perdidamente,
Eu só sei que falava e cheirava e gostava de mar
Sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente
E minha mãe se entregou a esse homem perdidamente,
laiá,
laiá,laiá, laiá
Ele assim como veio partiu não se sabe prá onde
E deixou minha mãe com o olhar cada dia mais longe
Esperando, parada, pregada na pedra do porto
Com seu único velho vestido, cada dia mais curto,
Ele assim como veio partiu não se sabe prá onde
E deixou minha mãe com o olhar cada dia mais longe
Esperando, parada, pregada na pedra do porto
Com seu único velho vestido, cada dia mais curto,
laiá,
laiá,laiá, laiá
Quando enfim eu nasci, minha mãe embrulhou-me num manto
Me vestiu como se eu fosse assim uma espécie de santo
Mas por não se lembrar de acalantos, a pobre mulher
Me ninava cantando cantigas de cabaré,
Quando enfim eu nasci, minha mãe embrulhou-me num manto
Me vestiu como se eu fosse assim uma espécie de santo
Mas por não se lembrar de acalantos, a pobre mulher
Me ninava cantando cantigas de cabaré,
laiá,
laiá, laiá, laiá
Minha mãe não tardou alertar toda a vizinhança
A mostrar que ali estava bem mais que uma simples criança
E não sei bem se por ironia ou se por amor
Resolveu me chamar com o nome do Nosso Senhor,
Minha mãe não tardou alertar toda a vizinhança
A mostrar que ali estava bem mais que uma simples criança
E não sei bem se por ironia ou se por amor
Resolveu me chamar com o nome do Nosso Senhor,
laiá,
laiá, laiá,laiá
Minha história e esse nome que ainda carrego comigo
Quando vou bar em bar, viro a mesa, berro, bebo e brigo
Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus,
Minha história e esse nome que ainda carrego comigo
Quando vou bar em bar, viro a mesa, berro, bebo e brigo
Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus,
laiá,
laiá
Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus,
Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus,
laiá,
laiá, laiá,laiá
A
observar
1
– Por que ele é Literatura?
2
– Qual o Gênero literário do texto?
3
– Identifique possíveis intertextualidades implícitas e/ou
explícitas.
4
– Qual o tema da música?
5
– Qual a realidade social tratada na música?
6
– Em que ponto a realidade da música se relaciona com a sua?
terça-feira, 16 de junho de 2015
2º ano Maioridade Penal artigos de opinião
Contra a diminuição
Redução da maioridade penal, grande faláciaO advogado criminalista Dalio Zippin Filho explica por que é contrário à mudança na maioridade penal
Diuturnamente o
Brasil é abalado com a notícia de que um crime bárbaro foi
praticado por um adolescente, penalmente irresponsável nos termos do
que dispõe os artigos 27 do CP, 104 do ECA e 228 da CF. A sociedade
clama por maior segurança. Pede pela redução da maioridade penal,
mas logo descobrirá que a criminalidade continuará a existir, e
haverá mais discussão, para reduzir para 14 ou 12 anos. Analisando
a legislação de 57 países, constatou-se que apenas 17% adotam
idade menor de 18 anos como definição legal de adulto.
Se aceitarmos
punir os adolescentes da mesma forma como fazemos com os adultos,
estamos admitindo que eles devem pagar pela ineficácia do Estado,
que não cumpriu a lei e não lhes deu a proteção constitucional
que é seu direito. A prisão é hipócrita, afirmando que retira o
indivíduo infrator da sociedade com a intenção de ressocializá-lo,
segregando-o, para depois reintegrá-lo. Com a redução da
menoridade penal, o nosso sistema penitenciário entrará em colapso.
85% dos menores
em conflito com a lei praticam delitos contra o patrimônio ou por
atuarem no tráfico de drogas, e somente 15% estão internados por
atentarem contra a vida. Afirmar que os adolescentes não são
punidos ou responsabilizados é permitir que a mentira, tantas vezes
dita, transforme-se em verdade, pois não é o ECA que provoca a
impunidade, mas a falta de ação do Estado. Ao contrário do que
muitos pensam, hoje em dia os adolescentes infratores são punidos
com muito mais rigor do que os adultos.
Apresentar
propostas legislativas visando à redução da menoridade penal com a
modificação do disposto no artigo 228 da Constituição Federal
constitui uma grande falácia, pois o artigo 60, § 4º, inciso IV de
nossa Carta Magna não admite que sejam objeto de deliberação de
emenda à Constituição os direitos e garantias individuais, pois se
trata de cláusula pétrea.
A prevenção à
criminalidade esta diretamente associada à existência de políticas
sociais básicas e não à repressão, pois não é a severidade da
pena que previne a criminalidade, mas sim a certeza de sua aplicação
e sua capacidade de inclusão social.
Dalio Zippin
Filho é advogado criminalista.
A favor da diminuição
Estatuto da Criança e do Adolescente não recupera menores infratores nem protege a sociedadeRicardo Setti
O
Estado do Rio apreende a cada 60 minutos uma criança ou adolescente
por infração criminal.
Ano
passado, o número de jovens infratores levados ao Ministério
Público ou ao Departamento Geral de Ações Socioeducativas (Novo
Degase), quase 8,4 mil, triplicou em relação a 2010. Levantamento
do Novo Degase mostra que a ligação com o tráfico de drogas é
responsável por 41% desses recolhimentos; a prática de roubos e
furtos, por outros 41%.
Com
variações de indicadores e de perfil das infrações, essa é uma
realidade que, seguramente, se repete em outros estados.
Em
si, são dados assustadores. E eles se agravam ainda mais num país
em que vigora uma legislação promulgada com objetivos distintos do
que a realidade revela.
Na
verdade, está no próprio escopo do Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA) o conjunto de regras que estabelece as relações
do Estado e da sociedade com os menores de idade, uma chave, das mais
emblemáticas, para desvendar a razão de a curva que registra o
envolvimento dos jovens com o crime permanecer em alta exponencial.
Em
vigor desde meados de 1990, o ECA foi legado ao país com o ambicioso
propósito de ser um instrumento para a proteção integral de
crianças e adolescentes. Mas, quase 25 anos depois de criada, a lei
revelou-se incapaz de fazer o poder público cumprir obrigações no
resguardo de jovens infratores.
E,
pelo excesso de paternalismo, tornou-se anteparo para um cada vez
maior número de menores de idade que se bandeiam em direção ao
crime.
A
inócua garantia de proteção e recuperação de menores infratores
se reflete no tamanho da leniência do poder público. O artigo 88 do
ECA garante a integração operacional de órgãos do Judiciário, do
MP, da Defensoria Pública e da Segurança em centros que agilizem o
atendimento inicial ao infrator, passo imprescindível para a
reinserção social.
Pelo
menos no Rio, um quarto de século não foi tempo suficiente para que
esse organismo de um mundo ideal saísse do papel.
Já
a liberalidade do ECA se mede pelas preocupantes estatísticas de
apreensões. O Estatuto é pródigo em listar direitos de menores de
idade, mas parco em lhes cobrar responsabilidades. Em razão disso, é
cada vez maior o número de jovens menores de 18 anos — mas em
idade suficiente para ter consciência de seus atos — que,
envolvidos em crimes violentos, ficam inalcançáveis pela Justiça.
segunda-feira, 15 de junho de 2015
3º ano A - Introdução de dissertações
Introdução
Ao
escrever o primeiro parágrafo de sua dissertação, você deve ter
em mente que este deve prender ao máximo o leitor e fazê-lo
entender qual será sua proposta de escrita para desenvolver o tema
proposto. Você pode fazê-lo de maneira criativa, evite os
lugares-comuns: atualmente,
hoje em dia, a cada dia que passa, no mundo em que vivemos.
Abaixo
apresentamos algumas propostas de introdução a cerca do mesmo tema,
procure identificar a estrutura de cada tipo exposto e, mais tarde,
tentar usar estes moldes. Lembre-se que o texto é livre, você pode
criar seu próprio modo de começar sua dissertação, basta ter uma
boa bagagem de leituras e bom senso.
Tema (covest 2007): Elabore um comentário opinativo, no qual você responda à seguinte questão:
Basta ter “escola para todos”?
A.
Frase de efeito
Buscar
a educação é uma tarefa sem fim. Mesmo quando estamos num país
onde a educação nunca é prioridade dos cofres públicos, onde os
pais preferem dar celulares ao invés de livros aos filhos. Tem-se um
caminho, falta realmente a vontade de mudar.
B.
Seqüência de frases nominais (sem verbo)
Fortunas
para modelos e jogadores de futebol. Analfabetos funcionais
espalhados por toda parte. Concepções errôneas sobre educação
tidas como válidas. Ensino publico defasado a ponto de criação de
cotas em universidades.
É
hora da sociedade rever sua concepção de educação e suas medidas
para melhorá-la.
C.
Pergunta
O
que realmente importa em educar: manter alunos em sala de aula ou
fazê-los cidadãos? Uma alternativa nunca deveria excluir a outra,
no entanto da forma como é tratada a educação no país é preciso
escolher. E nem sempre é feita a melhor escolha.
D.
Divisão
As
propostas educacionais têm dois compromissos fundamentais: preservar
as tradições e cultura de um povo e formar cidadãos capazes de
realizar as necessárias mudanças em nossa sociedade. Cumprir essas
diretrizes caracteriza o grande desafio que é educar.
E.
Oposição
De
um lado, o compromisso de formar o cidadão; de outro, a necessidade
de formar indivíduos competitivos dentro da concepção capitalista.
A educação se encontra nessa encruzilhada, qualquer passo errado
pode trazer sérias conseqüências para toda a sociedade.
F.
Citação Indireta
A
prática pedagógica é muito mais que ensinar conteúdos ou
posturas, é preparar o aluno para viver em sociedade, pensando assim
Paulo Freire mudou nossa concepção de educação. Agora precisa-se
modificar a realização desse grande projeto que é educar.
G.
Alusão histórica
Arrasado
pela pior das invenções do homem, um país procurou se reerguer. O
Japão investiu e investe tudo quanto pode em educação; assim, saiu
da condição de um país arrasado pela guerra para um país símbolo
de evolução e tecnologia. Este deve ser o caminho do futuro: uma
educação que é mais do que manter alunos na escola.
H.
Ilustração
Dona
Maria (48 anos, desempregada) gostaria de ter outra opção além dos
concursos públicos, já que descobriu que o tempo passado na escola
para terminar o seu ensino médio no ano passado não adiantou de
nada. Milhares de pessoas se deparam com a realidade de má qualidade
da educação no Brasil.
I.
Alusão Literária
Na
escola mais conceituada do Rio de Janeiro (Ateneu), estuda Sérgio;
menino inocente e meigo de família simples que foi obrigado a
conviver com o desequilíbrio de uma escola que não se importava
realmente com o que ocorria dentro de seu prédio. Sobreviveu não
porque havia aprendido a lição, mas porque tornou-se “esperto”.
A escola acabou destruída por um dos alunos e Sérgio voltou para
casa levando a mágoa de nunca ter aprendido o que deveria a escola
lhe ensinar.
Exemplo
clássico da escola brasileira, precisamos evitar que mais alunos
saiam da escola com a pior das lições aprendida: “a vida ensina”.
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