História de PassarinhoLygia Fagundes Telles
Um ano depois os
moradores do bairro ainda se lembravam do homem de cabelo ruivo que
enlouqueceu e sumiu de casa.
Ele era um santo,
disse a mulher abrindo os braços. E as pessoas em redor não
perguntaram nada e nem era preciso, perguntar o que se todos já
sabiam que era um bom homem que de repente abandonou casa, emprego no
cartório,o filho único, tudo. E se mandou Deus sabe para onde.
Só pode ter
enlouquecido, sussurrou a mulher, e as pessoas tinham que se
aproximar inclinando a cabeça para ouvir melhor. Mas de uma coisa
estou certa, tudo começou com aquele passarinho, começou com o
passarinho. Que o homem ruivo não sabia se era um canário ou um
pintassilgo. Ô,
Pai!caçoava o
filho, que raio de passarinho é esse que você foi arrumar?!
O homem ruivo
introduzia o dedo entre as grades da gaiola e ficava acariciando a
cabeça do passarinho que por essa época era um filhote todo
arrepiado, escassa a plumagem de um amarelo-pálido com algumas
peninhas de um cinza-claro.
Não sei, filho,
deve ter caído de algum ninho, peguei ele na rua, não sei que
passarinho é esse.
O menino mascava
chicle. Você não sabe nada mesmo, Pai, nem marca de carro, nem
marca de cigarro, nem marca de passarinho, você não sabe nada.
Em verdade, o homem
ruivo sabia bem poucas coisas. Mas de uma coisa ele estava certo, é
que naquele instante gostaria de estar em qualquer parte do mundo,
mas em qualquer parte mesmo, menos ali. Mais tarde, quando o
passarinho cresceu, o homem ruivo ficou sabendo também o quanto
ambos se pareciam, o passarinho e ele.
Ai!, o canto desse
passarinho, queixava-se a mulher. Você quer mesmo me atormentar,
Velho. O menino esticava os beiços, tentando fazer rodinhas com a
fumaça do cigarro que subia para o teto, Bicho mais chato, Pai,
solta ele.
Antes de sair para o
trabalho, o homem ruivo costumava ficar algum tempo olhando o
passarinho que desatava a cantar, as asas trêmulas ligeiramente
abertas, ora pousando num pé ora noutro e cantando como se não
pudesse parar nunca mais. O homem então enfiava a ponta do dedo
entre as grades, era a despedida e o passarinho, emudecido, vinha
meio encolhido oferecer-lhe a cabeça para a carícia. Enquanto o
homem se afastava, o passarinho se atirava meio às cegas contra as
grades, fugir, fugir. Algumas vezes, o homem assistiu a essas
tentativas que deixavam o passarinho tão cansado, o peito
palpitante, o bico ferido. Eu sei, você quer ir embora, você quer
ir embora mas não pode ir, lá fora é diferente e agora é tarde
demais.
A mulher punha-se
então a falar, e falava uns cinquenta minutos sobre as coisas todas
que quisera ter e que o homem ruivo não lhe dera, não esquecer
aquela viagem para Pocinhos do Rio Verde e o trem prateado descendo
pela noite até o mar. Esse mar que, se não fosse o pai (que Deus o
tenha!), ela jamais teria conhecido, porque em negra hora se casara
com um homem que não prestava para nada, Não sei mesmo onde estava
com a cabeça quando me casei com você, Velho.
Ele continuava com o
livro aberto no peito, gostava muito de ler. Quando a mulher baixava
o tom de voz, ainda furiosa (mas sem saber mais a razão de tanta
fúria), o homem ruivo fechava o livro e ia conversar com o
passarinho que se punha tão manso que se abrisse a portinhola
poderia colhê-lo na palma da mão. Decorridos os cinquenta minutos
das queixas, e como ele não respondia mesmo, ela se calava, exausta.
Puxava-o pela manga, afetuosa, Vai, Velho, o café está esfriando,
nunca pensei que nesta idade avançada eu fosse trabalhar tanto
assim. O homem ia tomar o café. Numa dessas vezes, esqueceu de
fechar a portinhola e quando voltou com o pano preto para cobrir a
gaiola (era noite) a gaiola estava vazia. Ele então sentou-se no
degrau de pedra da escada e ali ficou pela madrugada, fixo na
escuridão. Quando amanheceu, o gato da vizinha desceu o muro,
aproximou-se da escada onde estava o homem ruivo e ficou ali
estirado, a se espreguiçar sonolento de tão feliz. Por entre o pelo
negro do gato desprendeu-se uma pequenina pena amarelo-acinzentada
que o vento delicadamente fez voar. O homem inclinou-se para colher a
pena entre o polegar e o indicador. Mas não disse nada, nem mesmo
quando o menino, que presenciara a cena, desatou a rir, Passarinho
burro! Fugiu e acabou aí, na boca do gato!

Calmamente, sem a menor pressa, o homem ruivo guardou a pena no bolso do casaco e levantou-se com uma expressão tão estranha que o menino parou de rir para ficar olhando. Repetiria depois à Mãe, Mas ele até que parecia contente, Mãe, juro que o Pai parecia contente, juro! A mulher então interrompeu o filho num sussurro, Ele ficou louco.
Quando formou-se a
roda de vizinhos , o menino voltou a contar isso tudo, mas não achou
importante contar aquela coisa que descobriu de repente:o Pai era um
homem alto, nunca tinha reparado antes como ele era alto. Não contou
também que estranhou o andar do Pai, firme e reto, mas por que ele
andava agora desse jeito? E repetiu o que todos já sabiam, que
quando o Pai saiu, deixou o portão aberto e não olhou para trás.
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