O final de "A Carne" de Júlio Ribeiro
Como
não se morre de amor?
São
Paulo, 5 de outubro de 1887.
Ao
Sr. Manuel Barbosa envio muito saudar.
Mestre.
Ao
chegar à fazenda, surpreendeu-se de cerro com a minha partida um
tanto brusca.
Procurou-lhe
explicação, não achou: nem eu. Lembro-lhe o que diz Spinoza: "A
nossa ilusão do livre-arbítrio vem de ignorarmos nós os motivos
que nos dirigem ". No caso desta minha partida, eu poderia bem
crer que tinha livre-arbítrio. Demais sou mulher, sou fantasque Quem
vai discutir, explicar caprichos de mulher? Vale infinitamente mais
non ragionar di lor, guardar, passar.
Qual
tem sido a minha vida desde que vim da fazenda? Nem eu mesma sei.
Estudar,
não tenho estudado; fui sábia, fui preciosa tanto tempo, que achei
de justiça dar-me o luxo de ser ignorante, de ser mulher um
poucochinho.
Mas,
qual! ninguém é sábio impunemente. A ciência é uma túnica de
Dejanira: uma vez vestida, gruda-se à pele, não sai mais. Quando se
tenta arrancar, deixa pedaços de forro, que é o pedantismo.
(...)
São
Paulo é hoje uma grande cidade, dou-lhe, sem receio de erro,
sessenta mil habitantes.
Dia
a dia, para nome, para sul, para leste, para oeste, está crescendo,
está-se alastrando, é o que mais é, está-se aformoseando.
Os
horríveis casebres dos fins do século passado e dos princípios
deste vão sendo demolidos para dar lugar a habitações higiênicas,
confortáveis, modernas. Os palacetes do período de transição, à
fazendeira, à cosmopolita, sem arte, sem gosto, chatos, pesados, mas
solidamente construídos, constituem um defeito grave que não mais
desaparecerá. (...)
No
alastrar da cidade, bairros unem-se, vão desaparecendo as soluções
de continuidade predial: a Luz já pega com o Brás pela rua de São
Caetano.
O
comércio tem-se desenvolvido de modo assombroso, e a indústria
segue-o de perto.
(...)
Lá
fui ver a exposição permanente.
Mal
tinha eu entrado, entrou também um grupo de homens, três ou quatro,
se bem me lembra.
Era
um sujeito corpulento, coroado, limpo, no descambar da idade viril,
ou melhor, no verdor da velhice. O bigode farto, betado aqui e ali
por um fio de prata, e as longas costeletas acentuavam-se com nitidez
no rosto fresco, caprichosamente escanhoado. O cabelo dividia-se em
pastinhas despretensiosas no alto da testa vasta, ligeiramente
redonda. Colarinho de pontas quebradas, gravata branca de nó, colete
fechado até o nó da gravata, fraque, flor enorme na lapela, calças
de casimira preta com listinha de seda branca, chapéu preto, alto,
mole, sapatos Clark, pince-nez.
Belo
homem, Ramalho Ortigão, já adivinhou.
Um
dos que o acompanhavam era um rapaz alto, cheio de corpo, alvo de
cabelos castanho-claros, quase louros, ondeados, de bigode crespo, de
lábio inferior coroado, úmido; um causeur adorável, que o mestre
disse-me ter encontrado uma vez em Campinas, e a quem eu fui
apresentada um dia destes, em uma festa de anos, Gaspar da Silva.
Ramalho
entrou em conversas com um dos sócios da Casa Garraux: eu, fingindo
que examinava um livro, prestei-lhe toda atenção. Apanhei,
dissequei, analisei cada uma de sua palavras.
Voz
agradável, bem timbrada; pronúncia distinta, corretíssima; sotaque
alfacinha puro, estranho, muito estranho a ouvidos paulistas.
Ramalho
Ortigão é incontestavelmente um homem de combate, um grande
escritor. Eu, porém, não gosto dele. Acho-o trabalhado, limado,
castigado demais; acho qu'il pose toujours. Não escreve como
Garrett, vazando a alma no papel: calcula o efeito de cada palavra,
de cada frase, como um jogador de xadrez calcula o alcance do
movimento de cada peça. Nos seus escritos há notas, há quantidades
constantes, que reaparecem fatalmente. Encontra-se sempre uma
admiração exagerada por tudo quanto é vigor muscular, por tudo
quanto é manifestação de força humana física. O estadulho, a
bengala grossa são fato imprescindíveis das suas teorias de
moralização social. Afeta pelo asseio, pelo cuidado do corpo um
culto que chega a se tomar impertinente. Não perde ensejo de contar
que se banhou, que se barbeou, que mudou a roupa branca. Tanto
repete, tanto insiste, que até parece ter um secreto receio de que o
não acreditem. Escreve ele um livro novo: os seus leitores habituais
já lhe conhecem, já lhe esperam as ficelles. Há de falar por força
nas malas, nos apeiros de toilette, nos desinfetantes, na abundância
de cuecas e peúgas. Tem frases feitas, uma por exemplo - todos os
seus estandartes, todas as suas bandeiras, todas as suas flâmulas,
todos os seus galhardetes, estão sempre a palpitar gloriosamente,
estão sempre a bater em palpitações gloriosas.
Os
livros de Ramalho Ortigão são excelentes, não há negá-lo, quer
pelo fundo, quer pela forma. Bom senso e correção de linguagem até
ali: ensinam a pensar, e ensinam Português.
O
que eu não creio é que eles sejam um espelho, uma câmara escura
para se estudar a individualidade do autor.
Entendo
que não se pode ficar conhecendo a Ramalho Ortigão nem no Em Paris,
nem nas Farpas, nem na sua parte de Mistério da Estrada de Cintra,
nem nas Caldas e Praias, nem nas Impressões de Viagem, nem na
Holanda, nem no John Bull: melhor do que em isso, fotografa-se ele
nos seus depoimentos sobre a questão Vieira de Castro.
Seja
como for, ontem foi para mim um grande dia: conheci um grande homem.
Agora,
nós: o que mais de perto nos toca...
Seguiam-se
algumas linhas criptográficas, em uma cifra que Barbosa e Lenita
tinham combinado, desde os primeiros tempos de convivência.
Estou
grávida de três meses mais ou menos.
Preciso
de um pai oficial para nosso filho: ora pater est is quem instae
nuptiae demonstrant.
Se
tu fosses livre, fazíamos justas na igreja as nossas nuptias
naturais, e tudo estava pronto. Mas tu és casado, e a lei de
divórcio, aqui no Brasil não permite novo enlace: tive de procurar
outro.
"Tive
de procurar" é um modo de dizer: o outro deparou-se-me,
ofereceu-se-me; eu me limitei a aceitá-lo e ainda impus-lhe
condições.
É
o Dr. Mendes Maia.
Ao
chegar aqui, escrevi-lhe para a corte; ele veio imediatamente,
tivemos trina conferência larga, eu fui franca, contei-lhe tudo e...
e... e nós nos casamos amanhã, às 5 horas da madrugada.. Pelo trem
do Norte, que parte às 6, seguimos para a corte, e da corte para a
Europa no primeiro vapor.
Sei
que te hás de lembrar sempre de mim, como eu sempre hei de lembrar
de ti: calembour à parte, o que entre nós passou não se ouvida.
Não me guardes rancor. Fomos um para o outro o que podíamos ter
sido; nada mais, nada menos.
A
criança, se for menino, chamar-se-á Manuel; se for menina, Manuela.
(...)
Segue-se a isso o suicídio de Manuel.
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